Quando olhamos para a história do Brasil, percebemos que a relação entre o Estado e os povos indígenas sempre foi marcada por tentativas de controle. Desde a criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), em 1910, o discurso era de “proteção”, mas, na prática, tratava-se de integrar os indígenas à sociedade dominante, apagando suas identidades e culturas. Essa contradição moldou décadas de políticas públicas.
Com o tempo, o SPI se mostrou um espelho da própria política brasileira: cheio de promessas e marcado por abusos. O escândalo revelado pelo Relatório Figueiredo, em 1967, expôs torturas, escravidão e assassinatos praticados por servidores contra indígenas. Diante da repercussão, o governo extinguiu o órgão e criou a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), prometendo uma nova era de respeito. Mas, como tantas vezes na nossa história, o discurso de mudança não bastou para apagar as feridas deixadas.
Durante a ditadura militar, a FUNAI ficou subordinada aos interesses do Estado, e o ideal de “integração” continuou. Grandes obras, como a construção da Transamazônica, cortaram territórios indígenas e destruíram modos de vida inteiros. A lógica era clara: o progresso econômico valia mais que a preservação das culturas originárias. E nós, enquanto sociedade, fomos ensinados a enxergar isso como desenvolvimento.
Nos anos 1970, surgiram movimentos indígenas que começaram a questionar esse modelo. Pela primeira vez, os povos originários se organizaram para reivindicar voz política e reconhecimento. O chamado “Índio objeto” começou a se transformar em “Índio sujeito”, protagonista de sua própria história. Essa virada de consciência foi essencial para que as pautas indígenas ganhassem espaço nas discussões nacionais.
Com a abertura política e a redemocratização, o Brasil passou a rever o papel do Estado na questão indígena. A Constituição de 1988 marcou um avanço histórico ao reconhecer os direitos originários sobre as terras tradicionais e a pluralidade cultural do país. Nós, como nação, demos um passo importante ao entender que preservar as culturas indígenas é também preservar nossa própria história.
Mesmo assim, os desafios continuaram. O Estatuto do Índio, criado ainda na ditadura, manteve uma visão ultrapassada de tutela. A demora na demarcação de terras, os conflitos com garimpeiros e fazendeiros e a falta de políticas efetivas mostram que o respeito às comunidades indígenas ainda depende de vontade política e consciência coletiva. Nossa democracia ainda carrega o peso de séculos de exclusão.
Hoje, ao revisitarmos esse percurso, entendemos que a história indígena é, também, a história do Brasil que não aprendemos a olhar de frente. Reconhecer os erros do passado é o primeiro passo para construir um futuro mais justo. Não se trata apenas de reparar danos, mas de ouvir, compreender e valorizar quem esteve aqui muito antes de nós. Afinal, proteger os povos indígenas é proteger as raízes do que realmente somos.





